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11/06/2010

«Turmas mais pequenas? ME e especialistas dividem-se»

Não existem estudos que permitam determinar se, tendo em vista o sucesso escolar, existe um número ideal de alunos por turma. Mas esta incerteza científica só torna ainda mais inflamado o debate em torno da questão lançada pelo Movimento Escola Pública (MEP), que esta semana entregou na Assembleia da República uma petição em defesa da redução do número de alunos por turma.

A petição pede um máximo de 19 alunos no 1.º ciclo e de 22 nos restantes anos de escolaridade

Por baixo assinam nada menos do que 18 mil pessoas. De que foi feito o sucesso da petição? Do "bom senso" da medida, como alguns alegam? Ou do seu populismo, como outros criticam?

Quatro dias depois de ter sido lançada, a 1 de Maio, a petição já tinha reunido as quatro mil assinaturas necessárias para obrigar os deputados a debater o assunto em plenário. E o facto de o secretário de Estado da Educação, João Mata, ter vindo a público deixar claro que a resposta positiva do Governo estava fora de questão não fez abrandar o ritmo das adesões - pelo contrário. Até porque o governante não se limitou a assegurar que, das 60 mil turmas existentes no ensino público, 60 por cento já têm menos de 22 alunos e que não há correlação entre a dimensão das turmas e o sucesso escolar. De passagem, acrescentou: "Verifica-se, inclusive, que as turmas com menos de dez alunos são as que geram maiores taxas de insucesso escolar".

Foi uma frase incendiária para os blogues sobre Educação. "A resposta do secretário de Estado não é séria. Todos sabemos que quase todas as turmas pequenas em Portugal são constituídas a partir de alunos que já têm um historial grande de dificuldades", reclamou Miguel Reis, no blogue do Movimento Escola Pública. Depois, enumerou os três tipos de turmas que em Portugal podem ter dez ou menos alunos: "Turmas dos cursos profissionais - muitas vezes atirados para esta solução de recurso devido ao insucesso; turmas das escolas dos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária, precisamente de bairros muito desfavorecidos e onde o insucesso é muito comum; e turmas de repetentes".

Uma proposta populista?

Miguel Reis ainda assinala a contradição entre a frase e a política do Governo, recordando que "se essas turmas pequenas existem é porque há um reconhecimento do Estado de que se trata de uma medida favorável ao sucesso escolar". Pedro Araújo, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, não é menos incisivo quando frisa que o Ministério da Educação "só dá autorização para diminuir a dimensão das turmas em casos muito especiais, muito justificados e em que há alunos com situações muito problemáticas". "Não entendo - pretenderá o ministério aumentar o insucesso?", ironiza.

Carlos Ceia, docente na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e coordenador dos mestrados e da investigação na área do Ensino, mostrou-se especialmente indignado com o facto de o governante ter afirmado que a petição se baseia "numa ideia falsa". "Qualquer professor de qualquer país do mundo sabe que com um grupo de trabalho pequeno as hipóteses de sucesso são muito superiores e só quem está muito, muito distante da realidade da escola pode, com honestidade intelectual, defender o contrário", analisa.

Pedro Araújo - que ressalva que não considera a redução de alunos por turma "exequível a curto prazo, por falta de salas de aula disponíveis em muitas das escolas" - também diz não entender como pode o secretário de Estado ter "dúvidas de que com turmas com menos alunos se obtêm melhores resultados em termos académicos e de formação para a cidadania". Na sua perspectiva, "é uma verdade incontestável".

O peso da dimensão das turmas no sucesso escolar, contudo, não é pacífico. Na obra O Professor e a Caverna de Platão, que será lançada dia 16 pela editora Caleidoscópio, Carlos Ceia defende que a redução do número de alunos por turma, em especial nos dois primeiros ciclos do ensino básico, "devia ser um pilar central de qualquer política educativa".

Pedro Sales Rosário, professor e investigador do Departamento de Psicologia da Universidade do Minho e responsável pelo Grupo Universitário de Investigação em Auto-Regulação, discorda. "A petição reuniu tantos subscritores porque defende uma medida populista, da psicologia light", provoca o investigador.

Se Carlos Ceia, Miguel Reis e Pedro Araújo admitem que aquela medida não basta para garantir o sucesso, Sales Rosário considera-a "demagógica". "De que serviu aumentar as aulas de 50 para 90 minutos se aparentemente (porque não há estudos sobre isso) os professores continuaram a dar as aulas da mesma maneira? Não serviu de nada, como de nada serviria diminuir as turmas sem que essa medida fosse integrada numa mudança profunda no sistema educativo e, em particular, nas práticas desenvolvidas pelos docentes em sala de aula", considera o investigador.

Nada optimista, Sales Rosário ainda soma às condições para o combate ao insucesso "uma mudança de mentalidade quase impossível de concretizar". Acredita que falta aos portugueses - "sejam alunos, professores ou quaisquer outros profissionais" - "uma cultura de trabalho, de esforço, de disciplina". E que "não é por acaso que alunos russos e ucranianos se tornam em pouco tempo os melhores alunos da turma - seja ela grande ou pequena"; ou que "no Luxemburgo são precisamente os portugueses, estejam eles integrados em turmas grande ou pequenas, quem mais preocupação causa devido a dificuldades de aprendizagem e ao insucesso e abandono escolares".

Dulce Gonçalves, investigadora e professora universitária que trabalha com crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem no Centro de Psicologia Clínica Educacional de Lisboa, tem uma visão menos radical das possibilidades de transformação do sistema de ensino. Ressalva que é preciso investir paralelamente em áreas como as condições físicas de trabalho e a formação de professores, mas concorda que há uma tendência para a diminuição de indivíduos por turma.

"Há 35 anos, as crianças viam durante os mesmos 15 minutos os mesmos desenhos animados, liam os mesmos livros, tinham os mesmos jogos... Hoje cada uma é sujeita a estímulos muito diferentes e a escola terá cada vez mais de promover a exploração dessa diversidade, o que só é possível com grupos de menores dimensões", justifica.


in Público, 11-06-2010. Jornalista: Graça Barbosa Ribeiro

24/06/2009

Escolas matam a criatividade?

Segundo Sir Ken Robinson, criatividade e alfabetização têm a mesma importância relativa na educação. É absolutamente a notável a comunicação que fez em Monterey/Califórnia em Febreiro de 2006. Dispensem alguns minutos para ouver estes dois vídeos. Com a sua sagacidade e sentido de humor, no final ficamos simplesmente com vontade de mais!

06/06/2009

Ana Maria Bettencourt assume presidência do CNE

Público. 5-06-2009

Foi deputada do PS, foi assessora para a Educação do Presidente da República Jorge Sampaio e assumiu agora a presidência do Conselho Nacional da Educação (CNE). Ana Maria Bettencourt é professora e investigadora. É o contacto com as escolas do Norte da Europa que a faz ter a certeza que para conquistar o sucesso escolar é preciso mais trabalho, de professores e de alunos. Ainda não sabe qual vai ser a agenda do CNE para os próximos quatro anos, mas quer dar continuidade ao parecer sobre a educação dos 0 aos 12 anos, assim como a outro sobre o alargamento da escolaridade obrigatória para 12 anos. “Como organizar a escola, para que todos aprendam”, é a grande questão a responder em ambos os pareceres.

Extractos da
entrevista:

(...)a ministra propôs a introdução de uma segunda língua no 2.º ciclo. Concorda?
Na Finlândia, há alunos dessas idades [10 a 12 anos] a estudar cinco línguas, há percursos muito centrados nas línguas porque os finlandeses dizem que são um país periférico e têm que aprender. O problema não é o ensino de duas línguas, mas a consolidação da compreensão das mesmas. O estudo de uma língua estrangeira é um problema, tal como são todas as disciplinas com muitas precedências, que exigem consolidação de competências.

Como acontece também com a Matemática. Como é que se resolve esse problema?
Hoje em dia, temos mais capacidade para resolver problemas, mas para isso, os professores têm que trabalhar mais. Não podem ser só as famílias, embora estas sejam importantes; é a escola que tem que ter muito mais responsabilidade.

Até que ponto os professores não continuam a contar muito com a família para dar apoio ou para pagar explicações?
A OCDE tem um documento sobre o insucesso escolar em que recomenda: “Intervir ao primeiro sinal de dificuldade”. Ou seja, não deixar arrastar dificuldades, porque isso põe problemas gravíssimos às disciplinas com precedência. Outra coisa importante é a capacidade de diferenciar percursos, ou seja, quando há um aluno com dificuldades, a escola tem que ser mais organizada nos percursos individuais. A escola deve assentar não no aluno imaginário, mas naquele que existe. Não é o ensino centrado no programa, mas no aluno, porque o programa é pouco útil se os alunos não aprenderem. Essa mudança de paradigma é muito importante: pôr os alunos a trabalhar sozinhos, a corrigir os seus trabalhos, enquanto os professores ajudam os que têm mais dificuldades.

Mas os alunos não têm só problemas de aquisição de conhecimentos, mas de comportamento...
Aí deve haver tolerância zero.

Tem sido acusada de “facilitismo” porque defende que os alunos não devem chumbar?*
Faciltismo? Odeio essa palavra. Um aluno que chumba várias vezes é porque não foi apoiado e vai acabar por desistir, o que é mau para ele e para o país. O que defendo é que os professores compreendam as dificuldades dos alunos, insistam e trabalhem muito. Isto é muito importante, para poder resolver, porque se não, os professores dão sempre mais do mesmo. Um dos aspectos que me impressionou na escola finlandesa foi os alunos trabalharem imenso. Existem alunos com dificuldades, são apoiados e vão fazer a sua escolaridade. Eu defendo isto e não que os alunos passem sem saber. O que proponho não é facilitismo, mas mais trabalho para os professores e para os alunos.

Mas esses apoios já existem na escola, onde há aulas de apoio e de recuperação. É preciso mais?
Eu não falo desses apoios, mas do trabalho do professor na sala de aula, com os alunos. O professor tem que ensinar mais e de outras maneiras. É muito importante o trabalho em sala de aula, porque se o aluno tiver que trabalhar, não pode fazer gazeta e aprende. Isto não é facilitismo, facilitismo é a pessoa ignorar. A escola não pode ser indiferente às diferenças. O que diferencia as escolas, nos países do Norte da Europa, é a atenção dada aos alunos.

É desse modo que se evitam as retenções?
O insucesso escolar é uma situação insatisfatória e está provado que reter um aluno não resolve, isso prejudica os alunos que começam a criar resistências à aprendizagem. É preciso encontrar outra solução que é trabalhar mais e ir mudando os percursos.

Deve haver exames nacionais no final de cada ciclo?
O problema do sucesso nas aprendizagens não depende de mais exames. Está mais do que provado que não é com exames que se responde aos problemas dos alunos. As provas de aferição são um bom instrumento de auto-regulação. Há escolas que trabalham os resultados das provas de aferição. Também há outras que trabalham para a prova, o que é falsear a questão porque o objectivo não é ter bons resultados, mas é aprender com os resultados que se obtêm.


* Conselho Nacional de Educação propõe fim dos chumbos para alunos até aos 12 anos / 29-10-2008

[Alguns elementos sobre o Sistema Educativo da Finlândia: a escolaridade obrigatória é de nove anos, tal como em Portugal; as autarquias suportam todas as despesas, desde livros, materiais escolares, refeições, transportes e assistência médica; nas turmas em que há alunos com problemas de aprendizagem, há dois professores; as aulas funcionam com a ajuda do computador e os alunos começam, desde muito cedo, a trabalhar com vários programas informáticos; os filhos dos emigrantes têm aulas na sua própria língua, sendo os professores seleccionados pelas comunidades estrangeiras ali residentes; as escolas são avaliadas pelo seu desempenho e as que têm melhores resultados são contempladas com um reforço no seu orçamento.

Sobre o Sistema Educativo na Finlândia, consultar ainda:
Administração/Estrutura/Carreira Docente; Sistema de Ensino]

17/05/2009

Edgar Morin defende"reforma radical" no ensino para acabar com "hiperespecialização"


17.05.2009 - Simon Kamm, Agência Lusa [Público]

O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin defende uma "reforma radical" do modelo de ensino nas universidades e escolas, salientando a necessidade de passar da actual 'hiperespecialização' para uma aprendizagem que "integre as várias áreas do conhecimento".

Edgar Morin, considerado um dos maiores pensadores vivos, defende que apenas com esta mudança de paradigma no ensino as pessoas serão "capazes de compreender e enfrentar os problemas fundamentais da humanidade, cada vez mais complexos e globais".

Em entrevista à Lusa antes da sua vinda a Lisboa para participar num colóquio promovido sexta-feira pelo Instituto Piaget sobre os problemas estruturais dos actuais modelos de ensino, o filósofo francês considera que o modelo actual leva a "negligenciar a formação integral e não prepara os alunos para mais tarde enfrentarem o imprevisto e a mudança". "Temos a necessidade de reformar radicalmente o actual modelo de ensino nas universidades e escolas secundárias. Porquê? Porque actualmente o conhecimento está desintegrado em fragmentos disjuntos no interior das disciplinas, que não estão interligadas entre si e entre as quais não existe diálogo", sublinha.

"Cursos de conhecimento sobre o próprio conhecimento"
O filósofo, de 88 anos, critica, por exemplo, que nas escolas e universidades "não exista um ensino sobre o próprio saber", ou seja, sobre "os enganos, ilusões e erros que partem do próprio conhecimento", defendendo a necessidade de criar "cursos de conhecimento sobre o próprio conhecimento".

O autor de "Os Sete saberes para a Educação do Futuro, Educar para a Era Planetária" lamenta, igualmente, que a "condição humana está totalmente ausente" do ensino: "Perguntas como 'o que significa ser humano?' não são ensinadas", critica.

Por outro lado, Morin acredita que a "excessiva especialização" no ensino e nas profissões produz "um conhecimento incapaz de gerar uma visão global da realidade", uma 'inteligência cega'".

"Conhecer apenas fragmentos desagregados da realidade faz de nós cegos e impede-nos de enfrentar e compreender problemas fundamentais do nosso mundo enquanto humanos e cidadãos, e isto é uma ameaça para a nossa sobrevivência", defende.

"O que proponho é fornecer [aos alunos] as ferramentas de conhecimento para serem capazes de ligar os saberes dispersos", explica.

Sobre a escolha de área que os alunos portugueses têm de fazer no 10º ano, Edgar Morin é peremptório: "Não concordo. Antes de escolherem uma especialização, todos deveriam ter, durante um ou dois anos, cadeiras comuns de cultura geral", em que "devem ser abordados problemas fundamentais do conhecimento, da racionalidade, simplicidade, complexidade e os problemas fundamentais da civilização actual", precisa. "Só depois de aprenderem a desenvolver as capacidades mentais para atacar os problemas gerais é que deveriam poder escolher o que querem seguir".

Isto porque, garante Morin, "está demonstrado que a capacidade de tratar bem os problemas gerais favorece a resolução de problemas específicos", lembrando que a maioria dos grandes cientistas do século XX, como Einstein ou Eisenberg, "além de especialistas, tinham uma grande cultura filosófica e literária".

"Um bom cientista é alguém que procura ideias de outros campos do conhecimento para fecundar a sua disciplina", afirma, sublinhando que "todos os grandes descobrimentos se fazem nas fronteiras das disciplinas".

Garante também que "apesar de em muitas universidades norte-americanas existir maior flexibilidade no que toca ao modelo ensino", nos Estados Unidos existe o "mesmo problema que na Europa".


[Síntese sobre «Os Sete Saberes da Educação»]


28/01/2009

Políticas de valorização do primeiro ciclo do ensino básico em Portugal


Este é o link para o documento original do estudo editado recentemente pelo ME.

Título:
Políticas de valorização do primeiro ciclo do ensino básico em Portugal

Autoria:
Peter Matthews, Elisabeth Klaver, Judit Lannert, Gearóid Ó Conluain
e Alexandre Ventura

Edição:
Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação (GEPE)
URL: http: //www.gepe.min-edu.pt
Janeiro 2009



Site do ME